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Ricci Memoria

Jonathan D. Spence — O Palácio da Memória de Matteo Ricci


Excertos deste notável livro publicado pela Companhia das Letras, que esclarece e exemplifica ainda mais o estudo consagrado de Frances Yates, sobre a "Arte da Memória"

Em 1596, Matteo Ricci ensinou os chineses a construir um palácio da memória. Disse-lhes que o tamanho do palácio dependia do tanto que quisessem recordar: a construção mais ambiciosa consistiria de muitas centenas de edifícios de todas as formas e dimensões; "quantas mais forem, melhor será", disse Ricci, embora acrescentasse que não era necessário construir imediatamente numa escala grandiosa. A pessoa podia criar palácios modestos ou construir estruturas menos dramáticas, tais como o recinto de um templo, um conjunto de gabinetes oficiais, um albergue público ou uma tenda de mercadores. Se a pessoa quisesse começar numa escala ainda menor, poderia montar um simples salão de entrada, um pavilhão ou um estúdio. E se quisesse um espaço íntimo, poderia usar apenas o canto de um pavilhão, um altar num templo ou, até mesmo, um objeto tão doméstico como um guarda-roupa ou um divã.

Ao resumir esse sistema mnemônico, ele explicou que esses palácios, pavilhões e divãs eram estruturas mentais que se mantinham na cabeça da pessoa, e não objetos sólidos a serem literalmente construídos com materiais "reais". Ricci sugeriu que havia três opções principais para tais localidades da memória. Em primeiro lugar, podiam ser extraídas da realidade — isto é, de edifícios que a pessoa visitara ou de objetos que vira com os próprios olhos e que voltaram à sua memória. Em segundo lugar, podiam ser totalmente fictícias, produtos da imaginação elaborados sob qualquer forma ou tamanho. Ou, em terceiro lugar, podiam ser metade reais e metade fictícias, como no caso de um edifício bastante conhecido onde a pessoa, na parede de trás, abria uma porta imaginária, dando acesso a novos espaços, ou, no centro dele, criava uma escada mental que levaria a andares superiores que, até então, não existiam.

O objetivo real de todas essas construções mentais era o de oferecer espaços para a armazenagem dos milhares de conceitos que constituem a soma do nosso conhecimento humano. Devíamos dar uma imagem, escreveu Ricci, a tudo que queremos lembrar; e a cada uma dessas imagens devíamos atribuir uma posição onde ela possa descansar tranquilamente até que a chamemos através de um ato de memória. Visto que todo esse sistema de memória só pode funcionar se as imagens permanecem nas posições designadas e se conseguimos lembrar instantaneamente onde as armazenamos, obviamente pareceria mais fácil depender de localizações reais que conhecemos tão bem que jamais as esqueceríamos. Mas seria um erro, pensava Ricci. Pois é com o aumento do número de localidades e o número correspondente de imagens que podem ser aí armazenadas que aumentamos e fortalecemos nossa memória. Portanto, os chineses teriam de enfrentar a difícil tarefa de criar lugares fictícios ou de mesclá-los com lugares reais, fixando-os permanentemente em suas mentes, pelo exercício e revisão constantes, de forma que, finalmente, os espaços fictícios se tornam "como que reais, e jamais podem ser apagados".

Os chineses poderiam muito bem ter perguntado como é que tal sistema se desenvolveu pela primeira vez no mundo, e Ricci antecipou-se à pergunta, resumindo a antiga tradição ocidental que atribuía a ideia do treinamento mnemônico através da disposição exata ao poeta grego Simonides. Como explicou Ricci (aproximando ao máximo do chinês o nome do poeta):

Há muito tempo, um poeta ocidental, o nobre Xi-mo-ni-de, reuniu-se com seus parentes e amigos numa festa no palácio, em meio a uma grande multidão de convidados. Quando saiu por um momento da multidão, para passear lá fora, o grande salão se desmoronou com um fortíssimo vento súbito. Todos os outros participantes foram esmagados pela morte, seus corpos ficaram dilacerados e desfigurados, e nem suas próprias famílias puderam reconhecê-los. Xi-mo-ni-de, porém, conseguiu se lembrar da ordem exata em que estavam sentados seus parentes e amigos, e quando ele os recordou um por um, seus corpos puderam ser identificados. Aí podemos ver o nascimento do método mnemônico que foi transmitido às épocas posteriores.


Essa facilidade geral de lembrar a ordem das coisas que fora elaborada nos séculos seguintes; na época de Ricci, tornara-se uma forma de ordenar todo o conhecimento individual de assuntos seculares e religiosos e, visto ser o próprio Ricci um missionário católico, ele esperava que, quando os chineses aprendessem a valorizar suas capacidades mnemônicas, viessem a lhe perguntar sobre a religião que possibilitava tais maravilhas.

Matteo Ricci empreendera uma longa viagem para conseguir a oportunidade de apresentar a sua mnemônica a um auditório chinês culto. Italiano, nascido na cidade de Macerata em 1552, Ricci tornou-se noviço da ordem jesuíta de Roma em 1571 e, depois de um longo estudo de teologia, humanidades e ciências, seguiu para um aprendizado de cinco anos na India e Macau, chegando à China em 1583, em trabalho missionário. Em 1595, quando já adquirira fluência na língua chinesa, estabeleceu domicílio no próspero centro comercial e administrativo de Nanchang, na província oriental de Jiangxi. No final do mesmo ano, deu vazão à sua recente confiança em suas habilidades linguísticas escrevendo, em ideogramas chineses, um livro de máximas sobre a amizade, retiradas de vários autores clássicos e religiosos. Apresentou o manuscrito a um príncipe da dinastia reinante dos Ming, que vivia em Nanchang e o convidava frequentemente para as festas em seu palácio. Na mesma época, começava a discutir suas teorias sobre a memória com eruditos chineses da região e a dar aulas sobre técnicas mnemônicas. Sua descrição do palácio da memória se encontra num livrinho sobre a arte da memória, que escreveu em chinês no ano seguinte e ofereceu ao governador de Jiangxi, Lu Wangai, e aos seus três filhos.